Relatos de quarentena: Bah, que bom, preciso sair pra jogar o lixo fora
Dividir apartamento,
quando as pessoas se dão bem, é uma maravilha, mesmo assim, sempre vão surgir
conflitos, já que é igual um casamento, só que cada um tem seu espaço e sua
privacidade. Compartilhamos espaços comuns, sala, cozinha e banheiro. Aqui em casa,
compartilhamos o terraço também, dois, e a guarda do gato, o Perico, que é o bebê
de todos, mas paternidade é só de um, o que compra o alimento.
Em tempos
de quarentena, a convivência fica intensa, os atritos mudam. Algumas opiniões
se convergem, como: o que o Bolsonaro ainda está fazendo no governo? Mas isso
se converge mesmo com pessoas em outras quarentenas, e já tinha muita gente que
dizia isso antes de virar modinha. Morar juntos em quarentena é uma coisa boa,
ficamos isolados nos quartos fazendo nossas coisas, saímos para compartilhar e
socializar. Bebemos, nos divertimos.
Ontem foi o
dia de comemorar a defesa de doutorado de uma amiga. Ela na casa dela com o boy
dela. Eu com meus colegas de apartamento aqui em casa. Abrimos o espumante por Skype,
fiz uma tábua de frios com o que tinha. Torradinhas com ervas para dar um ar
gourmet, taças de vidro, plástico e copos para o espumante. Conversa vai, conversa
vem, falei as razões de eu estar feliz com aquela defesa. Falei também de como
foram esses 4 anos de convivência, da nossa relação com a orientadora, da vida
que levei nesse período.
No final,
sobramos a Bianka e eu. Partimos para uma conversa sobre amores e desamores.
Temos e contratempos. Mas algo estava errado, um cheiro estranho que parecia
não ser estranho.
Bah, Perico, tu está cagando nas plantas? Eu reclamei.
A Bianka ainda não tinha sentido, mas com o desenrolar do papo, ela também
passou a sentir. Investigamos, não era o cocô nas plantas, era o saquinho com
areia e o cocô que foram retirados da caixinha. Aquela descoberta, poderia ter-nos
deixado putos de raiva, mas não, foi uma ótima desculpa para sermos obrigados,
as 22 h, a sair na porta de casa para levar o lixo, que alguém teria deixado
ali, fedendo.
Fomos os
dois conversando, rindo. O contratempo e o atrito que normalmente é o lixo. Em
dias normais, teríamos já reclamado de o lixo ficar ali, fedendo. Bah, tão
deixando o lixo acumular. Em quarentena, que prazer, alguém deixou o lixo ali,
nada melhor do que o lixo fedendo, para se ter uma desculpa para sair de casa,
andar 10 m na calçada, e deixar o lixo no contêiner.

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